Depoimento ABRAPAVAA

Definitivamente, perder um ente querido num acidente aéreo, é algo que ninguém, absolutamente ninguém, imagina viver. Sempre que presenciamos ou ficamos sabendo de alguma tragédia, nos impressionamos. Mas, ficamos “aliviados” em saber que “não foi comigo, nenhum ente de minha família, tampouco um amigo”… é exatamente assim que pensamos. Sentimos pela dor do outro mas, não nos atinge diretamente.

Mas, numa lógica que “tem que ser com alguém” e porque não será com você? No que sou diferente desta ou daquela família? Não sou diferente de ninguém! Até então, eu pensava de uma forma que parecia que tudo que acontecia de trágico e doloroso, acontecia só com os outros e eu estaria sempre protegida e certa de que não viveria experiência semelhante… pois é… pensava, até a hora que aconteceu.

O ACIDENTE

No dia que aconteceu o acidente eu vivi duas sensações muito distintas. Na primeira informação que recebi, exatamente 30 minutos após o acidente – assim que cheguei ao dentista com meu filho e acabado de deixar meu marido para embarcar para o Rio de Janeiro – foi que “um avião da TAM caiu próximo ao Aeroporto de Congonhas e que seguia para Brasília”… sim… a informação era que seguia para Brasília, ou seja, até a metade da notícia fiquei em choque pois associava todas as informações ao voo do meu marido mas… com o restante da notícia contando que “o voo seguia para Brasília”… me perdoem mas, me deu um alívio imenso. Lógico fiquei muito sensibilizada afinal, já pensei em imediato, nessas 99 famílias, a dor, o inesperado e o choque.

Porém, em 1 hora a pior notícia se confirmou e me fez fazer parte das 99 famílias, da dor, do inesperado e do choque. Com a correção da informação, “o voo seguia para o Rio de Janeiro”.

Minha vida mudou absolutamente… de um extremo a outro. Com filhos pequenos, com 7 e 4 anos, muitos projetos, um casamento feliz, vida saudável, parceria, companheirismo, vida, vida, vida… como lidar com essa “reversão”? Afinal, alguém me perguntou se eu queria? Alguém me avisou? Alguém ao menos me alertou? Como lidar com uma mudança que, definitivamente, é a mudança mais radical que pode acontecer na vida de alguém. Sem perguntas, sem escolhas e sem opções.

ABRAPAVAA

O que se seguiu, faz parte da história da Abrapavaa. Muita luta, busca por direitos e principalmente, cuidados com os filhos para que pudessem, dentro do possível, manter uma vida equilibrada após uma perda tão importante como a de um pai.

Trocar experiências nesse sentido com outros familiares e amigos foi essencial e até saudável. Passamos a conhecer e conviver com inúmeros casos de dores semelhantes. Vida que segue… eu sei! Mas… como podemos fazer para que a vida siga de forma positiva e que, novamente, retomemos expectativas? Isso… a troca de experiências colabora e muito.

Cada dor é a dor de cada um. Cada caso é um caso. O fato de dizermos entre nós “a dor é a mesma pois falamos a mesma linguagem” é porque é algo tão difícil e inesperado que, realmente, só quem vive, tem a dimensão. Seja a perda por acidente aéreo, terrestre, marítimo, saúde, etc.etc. Perdas!!!

Vivi meu luto, meus filhos viveram seu luto. Fizemos terapia que é imprescindível pois, é impossível sair dessa tragédia pessoal sozinhos. Conhecemos outros familiares, nos unimos, nos apoiamos, reagimos e conquistamos. Seguimos com nossas vidas, viúvas se casaram novamente, tiveram outros filhos, filhos que se formaram, filhos que se casaram, novas alegrias, novos motivos para viver.

A saudade será eterna, a presença constante mas, com as lembranças boas, alegres e, de momentos inesquecíveis… que bom que tivemos todas essas oportunidades com alguém que tanto amamos. Vida que segue!!!

LIVRO

Passados 20 anos do acidente, escrevi um livro. O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA conta a história do acidente TAM 402 que, em 31 de outubro DE 2016, completa 20 anos.

Falo sobre a perda trágica e repentina de meu marido, como reagi, as demais famílias e a fundação da ABRAPAVAA – que presta assistência e apoio a familiares de vítimas de acidentes aéreos em todo o Brasil.

Em especial, um capítulo escrito pelo responsável pela investigação sobre as causas do acidente, Brig. Carlos Alberto da Conceição.

Um livro que poderá ajudar a vários casos de tragédias coletivas pois, orienta sobre caminhos, direitos, justiça e indenizações.

Para saber mais, clique aqui.


 

Sandra Assali, viúva de José Rahal Abu Assali, 45 anos e presidente da ABRAPAVAA

acidente: TAM 402 – 31/10/1996